quarta-feira, janeiro 19, 2011

O preço da igualdade

Mariana nasceu no meio de todos, cresceu longe de todos, mas não longe de tudo.

Era uma menina sonhadora. Como qualquer criança queria ser princesa, morar em um castelo e dar muitas e muitas festas. Mas a menina não tinha amigos, pois ela tinha nascido um pouco diferente das outras crianças. Suas pernas tortas faziam com que seus pés fossem virados para os lados de fora. Seus braços eram muito mais longos que o normal. E sua face era a parte do corpo que mais chamava atenção, visto que ela tinha um olho enorme bem no meio da testa. Por causa de todas essas peculiaridades os pais da garota decidiram criá-la numa fazenda distante e isolada. Onde ela poderia passear livremente sem sofrer a discriminação das outras crianças. Para lá seu pai levou muitos livros para que eles fizessem parte da educação e do dia a dia de Mariana.

Os anos se passaram e como era sozinha logo teve que aprender a brincar com borboletas, grilos, lagartos e qualquer bicho que cruzasse o seu caminho. Certo dia acordou e ao calçar os chinelos sentiu um arrepio gelado correr sobre o seu pé. No susto jogou a sandália longe e sentou na cama. Lá de cima vasculhou o chão e viu uma pequena lagartixa fugindo e perto de onde estavam seus calçados repousava o pequenino rabo que a criaturinha soltara na hora do susto. Mariana surpreendeu-se ao ver o bichinho mutilado e sentiu um aperto no peito. Afinal os animais eram os seus únicos amigos e jamais gostaria de trazer sofrimento a qualquer que fosse o bichinho. Saiu da cama, catou o membro amputado e foi em busca da lagartixa que tinha corrido para um canto do quarto. Com calma, foi se aproximando. Tomando muito cuidado para não assustar o réptil e nem perdê-lo de vista. Não sabia muito bem o que fazer, mas achou que o mais certo era devolver o rabo perdido. O animal não se mexeu e então Mariana depositou a cauda aos pés do bichinho com um pedido de desculpas e alguns suspiros muito sentidos.

- Não precisa ficar assim. Isso é normal, hoje cai, amanhã volta e assim em diante.

O susto foi grande, mas passou logo e quando menos se esperava lá estavam as duas tagarelando pra cima e pra baixo. Mariana agora tinha uma nova melhor amiga. Muito melhor que as antigas amigas imaginárias. A dona lagartixa sabia muitas coisas e conversavam sobre tudo e sobre nada também.

Quando a menina chegou perto dos quinze anos ela passou a ficar mais tempo trancada dentro do seu quarto e não era difícil encontrá-la triste e chorando nestes dias. Preocupada com a crescente tristeza da amiga a lagartixa resolveu ser direta e perguntar-lhe o que tinha acontecido.

- Sabe o que é dona lagartixa, desde pequenininha eu sonhava com um baile lindo, uma festa com muita gente, comida, bebida, danças, vestidos e tudo aquilo que eu sempre li nos livros lá de casa. Mas que graça teria uma festa em que eu convidasse todos os meus amigos? Seria o verdadeiro baile da floresta! Eu, os insetos e as feras. E que eu saiba os bichos não sabem dançar. Eu seria capaz de qualquer coisa pra ter uma festa de verdade.

- Entendo - respondeu a lagartixa que ficou ali assistindo a menina chorar em meio a soluços e lágrimas. Por fim a ela disse – Não fique assim Mariana. Vou ver o que posso fazer por ti. Espere por mim devo voltar com uma resposta daqui a um mês, quando a lua estiver cheia de novo. Enquanto isso, não chore e nem fique triste.



Um mês depois, quando a lua cheia brilhava num céu sem estrelas três batidas na porta anunciavam uma visita.

- Quem é você? – perguntou desconfiado o pai da menina. A sua frente uma linda jovem que deveria ter a mesma idade de sua filha.

- Sou Morgana, uma antiga amiga de Mariana. Eu poderia vê-la agora?

- Como assim amiga de Mariana? Minha filha nunca disse nada sobre conhecer outra menina. – foi o comentário da mãe que se juntava à dupla na porta.

- Ela pode não ter falado de mim, mas com certeza ela me conhece. Diga que tem uma amiga dela na porta. Aquela que um dia disse para ela não se preocupar com o rabo das lagartixas. Isso é o suficiente pra ela me reconhecer.

A mãe subiu e logo voltou com Mariana que não acreditava no que via. Na sua frente a dona lagartixa transformada em menina. Mas quando ela repetiu a história daquela longínqua manhã em que  fizeram o primeiro contato, todas as dúvidas de Mariana se desvaneceram e as meninas se abraçaram com a força que a saudade fez crescer durante a separação. As duas pediram licença e foram conversar a sós no quarto.

- Morgana, conte-me tudo. Onde esteve? O que fez? E principalmente como você fez pra ficar assim?

- Mariana, eu estive em lugares distantes e muito perigosos. Enfrentei dificuldades e fiz tudo o que foi preciso pra realizar o seu sonho. Eu sabia que isso era muito importante pra você.

- Adorei. Você ficou tão linda. E esse segundo olho… eu queria tanto ter um assim também.

- Ótimo, então a boa notícia é que você também pode ficar assim.

- Óh, Morgana! O que seria de mim sem a sua amizade?

- Deixe disso, sei que você faria o mesmo por mim e não me agradeça até que tudo esteja terminado. Mas antes de tudo eu tenho uma pergunta pra te fazer. Você está mesmo disposta a trocar o que você é pra se tornar igual a todos os outros?

- É claro.

- Não importa o que aconteça?

- Eu seria capaz de qualquer coisa.

- Ótimo! Então vamos em frente porque o nosso tempo é curto



No outro dia Mariana também já era uma linda menina com pés virados pra frente, braços normais e dois olhos no rosto. Levou alguns dias a mais para se adaptar a enxergar o mundo daquele jeito esquisito, mas se papai e mamãe conseguiam, ela também conseguiria. Porém, a dificuldade maior foi aprender a equilibrar-se com os pés virados de uma maneira tão estranha. Enquanto isso, Morgana corria a cidade convidando as pessoas para o baile de debutante que o pai de Mariana ofereceria dali a quinze dias. Uma festa na qual ele estava disposto a gastar metade de todo o dinheiro que ganhara em toda a sua vida. Morgana encantava todos os que a conheciam. As meninas a invejavam e os meninos a desejavam. E a antiga lagartixa sorriu sabendo que o baile seria um sucesso completo e inesquecível.

Conforme o dia se aproximava as lições de dança com o pai se intensificavam. Morgana fazia questão de cuidar pessoalmente do preparo dos pratos e das bebidas que seriam servidas na festa. A mãe de Mariana corria de um lado para outro acertando os preparativos da decoração e dos músicos. Todos os detalhes deveriam ser impecáveis e dignos da comemoração da cura da filha e sua apresentação à sociedade.

Na noite do baile, Morgana cobriu Mariana com o mais belo vestido que puderam comprar, sapatos prateados faziam parte do conjunto. Os longos cabelos negros foram penteados e presos com uma linda tiara reluzente. De frente para o espelho, o que mais chamava a atenção da moça não era a riqueza dos bordados do vestido ou o brilho da pedraria da tiara. A atenção estava toda depositada nos braços delicados, nos pés apontando pra frente e pro olho adicional que havia ganho. Sorriu porque agora era igual a todo mundo que se dizia normal.

Mariana virou para o lado e viu sua amiga sorrindo com os olhos cheios de lágrimas.

- Não chore hoje é dia de alegria.

- Não é tristeza, é emoção. Lembra que tudo tem um preço? Hoje é a nossa última noite juntas. Porque depois que tudo estiver terminado não poderei ficar aqui.

- Pra onde você vai?

- Pra onde eu vou, você não pode ir. Mas saiba que eu te amo muito e que tudo o que fiz foi pela nossa amizade – enxugou as lágrimas e continuou – Agora vamos porque fica feio a debutante se atrasar pra festa.

A entrada seria triunfal. Lançou um olhar para o salão lotado de brilho e beleza. Maravilhada com a existência de tantas meninas em sua cidade ela lembrou-se do tempo que só tinha os bichos como amigos. Lado a lado Morgana e Mariana desceram as escadarias cobertas com um tapete vermelho e chegaram até o centro do salão. Logo iniciaram os acordes da primeira valsa. Com o pai, ela rodopiou pelo salão como a personificação da graça e beleza juvenil. A felicidade resplandecia em seu rosto. Por ela o mundo poderia acabar ali mesmo, naquele instante e ela já seria feliz porque sua vida teria valido a pena. Mas depois da valsa com o pai veio outra com o “príncipe”, na verdade ele era apenas o rapaz mais belo da aldeia.

Uma hora de festa já havia passado e no meio de todas as danças, brilhos, vestidos, flores e sonhos, Morgana correu o salão distribuindo bebidas para um brinde especial.

Mariana ergueu a taça, no que foi imitada por todos e propôs o brinde.

- Que todos bebamos à felicidade e que a minha seja a mesma para vocês.

Logo após o brinde todas as pessoas presentes estavam transformadas em aberrações.

Desde então Mariana nunca mais se sentiu sozinha, pois todos eram muito parecidos com ela.

 
Conto escrito para o blogue "Duelo de escritores"
 
Pra quem não sabe o argumento do conto foi dado pela minha esposa, que depois de me assistir rodando pela casa e resmungando pelos cantos sem chegar a lugar nenhum, tomou a iniciativa de me ajudar. Ela escreveu um conto do jeito dela e passou para mim. Aí eu amarrei os fios soltos, arrumei aqui, ajeitei ali e saiu esse trabalho.
Então já aproveito pra regisrar o meu agradecimento a ela.
 
 
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4 comentários:

  1. Sem muitos comentários. Simplesmente incrível.
    Adorei!
    Beijos

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  2. Seus contos (como aquele ali embaixo entitulado "A Vida é um Baile") sempre me remetem à Bela e a Fera, e mereceriam uma trilha sonora J. S., pq tocam uma música que me apela bem fundo, que eu penso até que vai faltar ar pra respirar ;)

    Nem os iguais sao iguais, penso eu. Temos sim é que respeitar as diferenças e nos adequar.

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  3. Que bom que você gostou Raíssa.
    Um abraço moça.

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  4. Cris nem os iguais são iguais, mas seria interessante que as pessoas pudessem usar nossos sapatos por um dia, para verem onde eles apertam.
    J.S.-->Johann Strauss?

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