segunda-feira, fevereiro 21, 2011

A vaca certa

Era um homem simples, nascido e criado no interior. Não conhecia as modernidades da vida. Guiava sua existência pautando-se pelo conhecimento que tinha da natureza e da religião que que seus pais lhe ensinaram. Da terra retirava seu sustento, em troca oferecia-lhe seu suor. Com a roça de milho, a horta e os animais garantia à família uma vida segura. Sem luxos, porém garantidamente segura.
Mas na vida nada é certo ou perpétuo. Uma revelação rapidamente mudou as coisas ao seu redor, deixando tudo de pernas pro ar. Naquele dia o sol forte e o tempo seco castigaram tanto que resolveu retornar ao lar. Fugiria um pouco da quentura do meio-dia, comeria comida quente e ainda desfrutaria da companhia da esposa. Poucos metros antes de entrar em casa tudo ficou claro. A resposta para perguntas que jamais havia feito surgiu diante dos seus olhos. Intenso e repentino o evento fez-se sentir pelo corpo todo. Subitamente um tremor o acometeu e houve também uma dor no estômago. Na hora soube que não estava preparado para aquilo. Decidiu retroceder por onde viera. A luz daquela revelação exigia tempo e isolamento para ser digerida.
Retornou ao lar quando já estava escuro e a janta fria enfeitava a mesa. A esposa preocupada com o atraso esperava-o ansiosa. Ia questionar onde o marido estivera, entretanto a curiosidade foi obrigada a dar lugar ao pasmo e a indignação. Sereno o caboclo introduzia uma vaca porta a dentro. Com certa dificuldade no início, mas logo a ruminante estava instalada na cozinha. Por ser o maior cômodo da casa, fazendo as vezes de sala de jantar e cozinha o animal não ficou apertado ali dentro. Porém não havia forma dele combinar com a mobília. Naquela noite teve problemas para dormir. Passara um longo tempo brigando com a mulher sobre a questão da vaca. Não comentou a visão que tivera, mas mostrou-se irredutível na decisão de guardar o animal dentro de casa. Afinal era um direito dele ter um animal de estimação. A discussão só parou quando ele enfiou a mão na cara da esposa. Depois de uns bons tapas bem dados ela recuperou o juízo, calou a boca e foi dormir.
Nos dias seguintes adotou uma rígida rotina de cuidados para o novo habitante da casa. Antes de raiar o sol servia o trato, ordenhava, colocava água, retirava a bosta, batia um papo e só então seguia pra roça e pras lidas do cotidiano. As crianças não temiam o animal, até gostavam da sua presença. Era divertido fazê-lo comer em suas mãos e os menores até montavam em suas costas pra brincar de cavalinho. Para eles estava tudo bem. Era como ter um cachorro gigante em casa. Quem não suportava a idéia era a dona da casa. Contava com a ajuda do tempo pra trazer de volta o juizo que o marido perdera em algum lugar. Enquanto isso suportaria aquela presença incomoda mas em compensação não daria um minuto de paz àquele infeliz.
E assim todas as noites brigavam, mas agora ela sabia o momento exato de parar antes que chegassem à violência física. Só que esse pequeno martírio noturno não surgia efeito. O dia seguinte o marido tratava a vaca com mais esmero e dedicação do que no dia anterior. Tratava da vaca, ordenhava um café camargo e conversava com o bicho enquanto bebia.  Nos sábados a coisa ficava ainda pior. Dava banho no bicho, passava perfume e ainda catava qualquer eventual carrapato que ela tivesse.
Aquilo que começou como indignação rapidamente transformou-se em ciúme. O marido tinha mais carinho e atenção para o animal do que para ela que era a mãe dos filhos dele. Era um absurdo. Seria capaz de suportar muitas coisas, mas jamais aceitaria a humilhação de ser trocada por uma quadrupede ruminante. Enfim deu um ultimato ao esposo, ou ela, ou a vaca. Ele que escolhesse, pois aquela casa era pequena demais para as duas. O marido que até ali ouvira em silêncio as reclamações dela, levantou, foi até a porta da casa, olhou o horizonte, soltou um suspiro e sentenciou.
- Quanto a você eu não sei, mas a vaca fica.
No dia seguinte encontrou a casa vazia quando retornou da roça. Sentiu falta dos filhos, mas aproveitou o silêncio para repensar tudo o que tinha acontecido e o que iria fazer dali pra frente.
Não fazia nem dois dias completos que estava sozinho quando o padre apareceu. Com certeza a mulher já andava espalhando mexericos por aí. Depois das saudações e das amenidades o pastor entrou no assunto que realmente importava. Já sabia de toda a história e antes de mais nada queria saber o motivo que levara aquele homem a criar uma vaca dentro de casa.
- Olha seu padre o senhor me desculpe, mas agora só mora eu mais a vaca e hoje eu tenho certeza e juro pro senhor que naquela casa os chifres estão na cabeça certa.


Café camargo-->café feito ordenhando o leite direto da vaca para a xícara. Nas próximas férias vou experimentar. Depois disso conto pra vocês direitinho como a coisa funciona.

Conto escrito para o blogue "Duelo de escritores"

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8 comentários:

  1. aiuehiue
    Adorei, escritor. :)
    Beijos

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  2. Não esperava por esse epílogo.
    Excelente!

    Um abraço.

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  3. ahahah
    Vaca por vaca, escolheu a autentica!

    boa!

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  4. Carlos conseguir surpreender alguém como você já é uma vitória.
    Um abraço.

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  5. Zaratrusta essa pelo menos rende alguma coisa.
    Um abraço.

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  6. Ciúme dá nisso, acha-se pêlo em ovo!
    Muito bom L. S.!

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  7. Ou cifre em cabeça de marido.

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