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quinta-feira, maio 09, 2013

Eu robô?

Fagundes (nome fictício) é funcionário de uma empresa pública há 29 anos. Chega ao serviço, estaciona seu carro, trava-o e segue caminhando até sua sala. Nesse trajeto dezenas de pessoas passam por ele, mas, como elas estão abaixo do seu queixo, não as vê.

Entra em sua sala, senta em sua ilha (assim mesmo no possessivo) e isola-se.

Esses espaços foram chamados de ilhas propositadamente. As pessoas nadam até elas, como náufragos. Completamente ilhados, cercados de indiferença por todos os lados, assim, sobrevivem as suas oito horas diárias.

Belas mensagens nos murais, notícias importantes, um cartaz interessante, tudo é ignorado, imagine um ser humano, esse ser insignificante, egoísta e mesquinho. “Quero mais é cumprir minha obrigação e ir para minha casa!”, acusa aquela voz sintética e programada.

E assim vai a massa ignara, tangida e submissa para os abatedouros da vida.

Onde está aquele aperto de mão sincero? Onde está aquele abraço amigo? Aquele sorriso justo? Aquele bom dia altaneiro? Onde foi parar o cavalheirismo, a diplomacia, a educação?

Seres autômatos, formais, empedernidos, céticos, cruéis!

A frieza, a indiferença, o desamor, o apego às coisas materiais, a servidão humana, a devassidão do tempo, sei lá o que mais. Tudo isso contribuiu e contribui para afastar e isolar as pessoas, tornando-as escravas de si mesmas.

Relacionamento. Que bela palavra. Significa manter laços afetivos, conectar-se, estabelecer ligações e correspondência. Mas não passa disso, apenas uma palavra, principalmente dentro de uma repartição pública.

Morto-vivos, zumbis é o que são. Gente sem alma e sem coração (perdoem-me a rima pobre, não foi minha intenção, putz, de novo!).

Nenhum ser humano pode passar dias, meses, anos nessa sofreguidão, nesse isolamento, apenas uma máquina fria, oleosa, sistemática e calculista pode sobreviver dessa forma.

Não se trata aqui de desrespeitar o individualismo (e nesse caso essa palavra ganha ênfase), trata-se de saber que vivemos em bando, em sociedade, em grupos. Nem mesmo o eremita na mais inóspita região desértica está só (esotericamente falando).

Chega à hora religiosa do final do dia. “Programadamente”, Fagundes assina seu ponto, ergue-se de sua cadeira e caminha em direção ao seu túmulo para descansar suas engrenagens, e na manhã seguinte, voltar ao seu obscuro oceano, ao seu planejado arquipélago e a sua inestimável, desolada e gélida ilha.
 
Hélio Cabral Filho

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domingo, janeiro 20, 2013

Poucos nascem para o sol

Dizem os sábios que dos prazeres da vida os melhores são os mais simples. Sou forçado a concordar com eles. Talvez o problema seja que eu nunca tive acesso a prazeres sofisticados e por isso eu sofra de falta de parâmetro.  De qualquer forma o que tenho a dizer é que as primeiras horas do dia estão aí para serem aproveitadas. 
Acordar cedo e sair pra caminhar é usufruir um dos mais simples prazeres ao nosso dispor. O poder se deslocar do ponto A até o B sem necessitar de auxilio algum, sem depender de ninguém. Ir além dos muros é gozo que só notamos depois que somos expostos àqueles que não podem andar por aí. Assim como levantar-se da cama é tão bobo e tão importante e nós não percebemos. Além disso ás vezes a natureza da uma contribuição e pinta um quadro lindo no céu. Mas esse é um espetáculo para poucos. Nem todos que acordam cedo tem forças pra erguer a cabeça e admirar a vida.

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quinta-feira, dezembro 29, 2011

O menos votado

Poderia alegar diversos motivos para ser o menos votado nesta rodada enumerarei alguns no texto abaixo, caso o caro leitor se dê o trabalho de ler espero que aprecie.
O primeiro e óbvio aspecto que me leva a ser o menos votado é que não posso votar em mim mesmo. O que não passa de uma arbitrariedade e uma injustiça contra a minha pessoa e a idoneidade do processo eleitoral.
 Estou ausente a vários desafios. Tanto que meu nome nem ao menos é lembrado pelos antigos combatentes. Isso me faz acreditar que nem ao menos os votos de piedade conseguirei angariar.
Meu texto não passa de uma lista de lamentações e desculpas simplórias. Um amontoado de lamúrias e choramingos digno de um bebe chorão. Coisa de quem não se deu ao trabalho de pesquisar corretamente o assunto antes de principiar a tarefa da escrita.
Porém o fator óbvio da minha votação nula será o fato de que sou um gênio e como tal serei sempre imcompreendido pelas pessoas do meu tempo. Sendo que somente muitos anos após a minha morte, quando o meu estilo de escrita estiver sendo adotado pelos novos escritores os estudiosos descobrirão que antes dessa leva houve um escritor praticamente desconhecido que já trilhava esses caminhos. Dessa forma não os culpo por não votarem em mim. Afinal você não tem culpa da cegueira em que vivem.
Outra possibilidade que surge é não ter votos por não ter enviado o texto. A vantagem de estar digitando às 09h00min da manhã, confortavelmente instalado numa rede, ouvindo o canto dos pássaros e usufruindo do clima agradável de uma cidade a beira-mar é diretamente contrabalanceada pela escassez de acesso a internet. De que me adianta gastar meu tempo criando algo que não terei como transmitir em tempo hábil de participar do duelo? Talvez seja melhor baixar a tela do note book e pedir outra água de coco.
É claro que o inverso também pode ser verdade. Vai que eu sou um péssimo escritor. Pode ser que eu simplesmente seja um medíocre que fica rabiscando qualquer coisa e ache que isso tem algum mérito ou valor. Mas é claro que dessa doença eu não sofro sozinho. Ainda mais agora que qualquer um com um pouco de recursos consegue pagar a impressão do seu próprio livro. Com isso a enxurrada de autores ruins leva as pessoas a acreditar que qualquer zé mané pode se tornar o próximo Paulo Coelho. Até mesmo eu.
Enfim, razões para ser o menos votado não me faltam. Mas, creio mesmo que vou ganhar pelo simples fato de não entregar este texto a tempo. Como já citei acima o balneário tem uma péssima infra-estrutura de internet, de modo que todos esse trabalho deve ser em vão.

O texto acima foi escrito para o desafio do Duelo de escritores.


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terça-feira, agosto 09, 2011

Goiabeira

É fato que eu sempre acreditei que uma casa para ter direito a usar esse nome deveria ter obrigatoriamente em seu quintal um pé de limão. Afinal o limoeiro é um provedor por natureza. Caipirinha, tempero, chá, suco, detergente, desodorante, etc. Tudo isso o limão nos dá e ainda mais. Por isso não consigo visualizar uma vida tranqüila sem ter essa árvore por perto. Mas isso todo mundo sabe. A novidade surgiu-me no final de semana na casa do meu sogro.
A goiabeira. Com toda a certeza não é tão útil quanto o limoeiro, mas depois de ver a minha filha brincando de balanço e subindo nos galhos. Rindo feliz e despreocupada. Fez-me lembrar que um dia eu já tive uma goiabeira no meu quintal. E que aqueles foram dias felizes. A árvore não foi responsável por tudo, mas fez a sua contribuição. Forneceu brincadeiras, frutas e até galhos para reforço educacional lá em casa.
Baseado nessas lembranças é que afirmo:

Uma casa precisa de um limoeiro.
Uma casa com crianças precisa de um limoeiro e uma goiabeira.

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quinta-feira, julho 28, 2011

Alles Blau em Blumenau

Andando pela ruas em Blumenau uma característica saltou-me aos olhos. Os nomes dos estabelecimentos comerciais.
  • Blu Pizza
  • Blu Lanches
  • Blu Car
  • Blu Sound

Fico pensando como seria se esse povo morasse em Curitibanos.

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sábado, janeiro 01, 2011

DR X DF Discutir a Relação X Discutir Finanças

Se alguém acha que Discutir a Relação é o cúmulo do estresse que pode surgir entre um casal é porque é muito novo ou muito inexperiente. Nenhuma D.R. chega aos pés de uma Discutir Finanças. Depois de um certo tempo ninguém mais quer discutir o ciúme, carinho, falta de atenção. O que importa mesmo são as contas vencendo no final do mês e o tênis que começou a rasgar. O seu salário não é suficiente e o dela também. Falta dinheiro pra isso e pra aquilo. Vocês colocam as receitas e as despesas no papel e vão discutindo as coisas com a maior racionalidade possível. Até que chega a hora de cortar o creme facial dela. Aí a racionalidade vai pra puta que o pariu e se você não se mover rápido vai junto. Não adianta explicar os benefícios futuros de uma economia atual. Segundo a lógica do:
"Pra que guardar dinheiro se quando eu for velho vou ter que gastar tudo com remédio." não vale a pena juntar nada. O negócio é aproveitar agora e o futuro que se vire.
Mas o mais importante a saber é que não importa o que você faça ou o que você diga, no fim toda D.F. vai descambar para uma D.R. e aí... os mortos ressuscitam, os Ex também. Ofensas do século passado ecoam como se tivessem sido pronunciadas há segundos e qualquer falha, qualquer erro serve pra ser jogado na cara.
E no fim de tudo o que se consegue são duas pessoas que continuam endividadas, mas que agora tem o mau humor pra juntar aos seus problemas.

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quarta-feira, maio 12, 2010

Desejo secreto


Joana sempre gostou de crianças. Mesmo com dois irmãos, desejava ter mais. Na rua onde morava, todos os vizinhos tinham crianças em seu lar. Apesar de havê-las na sua idade, Joana brincava mais com as menorzinhas. Para as mamães vizinhas, a garota era uma excelente distração para os seus rebentos. Estudava com dedicação, lia vorazmente livros, jornais e revistas, freqüentava as aulas de balé, cursava inglês e espanhol, e no tempo livre, adivinhe o que ela fazia? Sim, brincava com os pequeninos. Muita gente achava que ela ia ser professora, casar cedo e ter muitos filhos. O destino mostrou que não foi bem assim.

Quando terminou o ensino médio, Joana conseguiu ser aprovada na melhor universidade do seu estado. Foi morar na capital para cursar Administração. Viveu em uma república com cinco garotas. Conseguiu o primeiro emprego em uma loja de artigos esportivos. Teve o seu primeiro namorado, Sérgio, estudante de Direito na mesma universidade. No último ano da faculdade, Joana conseguiu estágio numa grande e conceituada tecelagem. Colou grau em Administração com louvor, sendo considerada a melhor aluna do curso. Como prêmio por sua dedicação aos estudos, a tecelagem a promoveu para ser uma de seus administradores. Não demorou muito para Joana se tornar uma dos principais executivos da empresa. Seus pais, irmãos, parentes, amigos e moradores de sua cidade natal tinham muito orgulho de sua menina. Afinal, foi graças a ela que a cidade ganhou uma filial da tecelagem, gerando oportunidades de emprego.

Após cinco anos de empresa e nove de namoro, Joana casou com o seu primeiro namorado. Sérgio havia concluído a faculdade um ano antes de Joana e iniciado a carreira num escritório de advocacia. Após aprovação em concurso público, assumiu o cargo de promotor. Ambos desejavam filhos. Não tinham pressa. A carreira de ambos ia muito bem e cada um guardava suas economias. Joana tinha um sonho secreto. Somente Sérgio sabia.

Com o passar dos anos, o filho não vinha. Era para vir, mas Joana sofreu dois abortos espontâneos. Depois a mulher recebeu o diagnóstico de câncer no seio esquerdo. Foi muito sofrimento para o casal. Forte e otimista, Joana encarou todos os procedimentos médicos recomendados até ouvir a feliz notícia de que estava curada. Não havia mais sinal do câncer. Apenas precisava ter acompanhamento médico.

Após esses sofrimentos, a relação de Joana e de Sérgio já não era mais a mesma. Sérgio queria muito um filho. Joana também. Ela não podia mais gerar um bebê. O câncer matou a chance de uma gravidez. A mulher enxergava outra saída para tê-lo. Era a hora de realizar o seu sonho. Não conseguiu gerar filhos dentro do seu ventre. Mas... Eis o seu desejo secreto: adotar uma criança.

Apesar de apoiar o sonho da esposa, Sérgio não queria adotar uma criança sem ter um filho seu. Imaginava ver alguma característica física ou jeito de ser seu ou da esposa na criança. A separação foi a conseqüência. Com respeito e harmonia, cada um seguiu seu caminho. Joana não perdeu tempo para colocar seu desejo em prática. Mais que um sonho, era uma meta a ser atingida.

Desde o tratamento contra o câncer, ela havia deixado de ser executiva da tecelagem a fim de diminuir o ritmo intenso do trabalho. Recebeu o cargo de administradora da área de recursos humanos. Sérgio e Joana venderam as propriedades que possuíam. Com os lucros das vendas e das economias guardadas, Joana comprou um pequeno apartamento de dois quartos na capital e começou a construir uma imensa casa em sua cidade natal. Quando a casa ficou pronta, ela já possuía a meta realizada: Gustavo, de 4 anos de idade, filho de pais mortos na guerra do tráfico de drogas, fazia parte de sua vida.

Com Gustavo, ela voltou a morar em sua terra natal na grande casa que construiu. Como havia uma filial da tecelagem, Joana pediu transferência. Em apenas três anos, ela aumentou o número de filhos do seu coração, como prefere dizer em vez de “filhos adotivos”. Nenhum deles era bebê quando apareceu Joana. Não são loiros e nem possuem pele branca. Joana quis fugir do comum. Acolher crianças que dificilmente seriam adotadas. Com cinco sob a sua responsabilidade, Joana quer vencer mais um desafio: adotar uma criança com alguma deficiência. Já está se preparando. E também para se unir ao novo amor de sua vida: Carlos.

Muitos perguntaram o motivo de Joana não ter revelado o seu desejo quando criança. Ela respondeu: “Não era o momento certo para contar. Não queria ficar falando isso por aí. Precisava crescer e amadurecer a ideia. Se contasse antes, muitos iriam dizer que era um sonho maluco, difícil de ser realizado, fazendo com que eu desistisse”. A sua família, parentes, amigos e moradores de sua cidade sentiam ainda mais orgulhosos de Joana, uma esguia e bela mulher negra de cabelos encarolados e profundos olhos verdes.

OBS.: A ilustração é de minha cunhada Nina.

Lu Vieira

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segunda-feira, abril 05, 2010

As crianças e os óculos

Logo após o término dos espetáculos da Noite de Gala apresentados pelos alunos da Escola de Teatro Bolshoi no Brasil que comentei no post Bolshoi e Giselle , minha amiga me cutucou e disse: “Olha que menina linda!”. De fato, era linda mesmo. Tratava-se de uma bebezinha de quase um ano de idade no colo de uma mulher. Quando a vi, elas já iam embora. Pude perceber que a bebê me olhava e sorri com vontade de pegá-la para dar beijos e abraços. Aí veio a revelação: “Lu, ela olhou o tempo todo para você durante a noite. Via você gritar, falar “Bravo” e bater palmas. Mesmo que outras pessoas fizessem a mesma coisa que você, ela olhava só para você.” Ahhhh... Por que não vi a fofa antes?! A mulher e a menininha estavam sentadas exatamente na minha frente! No entanto, estávamos sentadas na arquibancada e virávamos o pescoço para o lado direito a fim de ver as apresentações dos alunos. Eu fiquei muito concentrada nos espetáculos e minha companhia nem quis me perturbar.

Minha amiga perguntou: “Por que será que você chamou tanto a atenção dela?”. Respondi: “Por causa dos meus óculos.” Sim, eu uso óculos de grau desde os quinze anos de idade, pois tenho miopia e astigmatismo. Eu notava que os pequeninos me observavam intensamente e não sabia o motivo disso. Achava que eles percebiam o quanto gosto de crianças. Um dia soube por uma pessoa que são os óculos que chamam a atenção deles. Quando os pais ou pessoas próximas das crianças pequenas não os utilizam, elas estranham muito ao ver alguém os usando. É como se elas estivessem percebendo que temos “quatro olhos”. Quando noto o olhar fixo em mim, às vezes, tiro os óculos e depois os ponho de volta no meu rosto. Algumas ficam ainda mais fascinadas. Aí não param de me fitar mesmo. Culpa minha.

Não são apenas os óculos de grau que atraem a atenção dos pequenos. Os óculos escuros protetores dos raios solares também têm o mesmo efeito. Já perceberam o olhar fixo de uma criança pequena em vocês quando usam óculos?

Lu Vieira

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segunda-feira, março 15, 2010

Rosto comum

É impressionante como eu tenho cara comum. Não possuo um rosto exótico. Fui confundida diversas vezes com outras pessoas. Sou parecida com alguém, até com gente famosa. Já ouvi diversas vezes as pessoas falarem comigo assim: “Conheço você de algum lugar”. Olho para elas e me dá uma sensação ruim. Será que as conheço também? Não gosto de esquecer quem conheci ou conheço. Creio que ainda tenho boa memória.

Já fui parecida com a ex-atriz Lídia Brondi e as atrizes Silvia Pfeifer e Bel Kutner. Como a Silvia Pfeifer atua hoje numa novela da TV Record, me disseram que lembro muito a atriz. Só apareci na televisão uma vez na vida. Foi para uma televisão paga e veiculada somente em Joinville. Havia sido entrevistada num programa como veterana do curso de jornalismo. Junto comigo estava o calouro do curso. A ideia do apresentador era conhecer os pontos de vista de um calouro e de uma veterana sobre a faculdade de jornalismo. Nunca vi a entrevista, pois não tinha TV paga em casa. Não quis pegar uma cópia do programa. No entanto, ouvi isto: “Eu vi você na TV!”.

Na escola, nunca fui parecida fisicamente com a minha irmã. Com as amigas dela, sim. Quando estava junto com elas, muitos falaram assim: “Não, você não se parece com ela, mas com ela sim (apontando para a amiga de minha irmã). Quando minha irmã entrou para a faculdade, aconteceu a mesma coisa. Ela tinha (ainda tem) uma amiga que era a minha cara. Somente uma vez na vida fomos consideradas irmãs. Havíamos cortado o cabelo acima dos ombros e repicado os fios. Um colega de trabalho meu disse: “Eu te vi no sábado dirigindo perto da minha casa e acenei para você. Mas você não me viu”. Naquela tarde de sábado foi a minha irmã quem dirigiu o carro de meu pai. Ele insistiu tanto dizendo que era eu que terminei a conversa desta forma: “Tá, era eu mesma”. Uma vez a caixa de supermercado olhou para nós duas e perguntou: “Vocês duas são gêmeas?”

Uma colega de trabalho me elogiou: “Lu, adorei o seu discurso de ontem”. Ela explicou que foi num evento da Igreja Católica. Várias vezes fui escolhida como representante dos colegas para discursar sobre alguém por causa do aniversário ou de alguma conquista. Eu falava de improviso e as palavras ditas por mim eram sinceras, verdadeiras e vinham do fundo do meu coração. Sempre pedi a Deus que da minha boca saísse mensagens boas para o homenageado e a todos os acompanhantes da ocasião. E não fui eu quem fez o discurso no evento da Igreja Católica.

Na faculdade não foi diferente. Uma colega chegou na sala de aula e logo sentou ao meu lado contando: “Lu, paguei o maior mico hoje!” Ela havia ido numa clínica médica e começou a conversar com a atendente. À medida que conversava, ela percebeu que “eu estava estranha”. Nunca trabalhei em consultório médico...

No ano passado teve um dia que estava lendo um livro na biblioteca da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) quando fui abordada por um rapaz com esta pergunta: “Você é a primeira colocada geral do vestibular da UFSC?” A jovem que obteve essa classificação tinha o rosto estampado em outdoors, propaganda da escola onde estudou e se preparou para o vestibular. E também aparecia na TV. Foi entrevistada em jornais da cidade. Sim, a moça se parecia comigo. Ela usa óculos, têm cabelos lisos, longos e castanhos, pele clara, sorriso bonito, usa anéis, principalmente no dedo polegar... A diferença? Sou uma balzaquiana e ela com 17 anos de idade.

No entanto, creio que, às vezes, eu mesma confundo as pessoas. Costumava mudar constantemente o meu visual. E fico diferente a cada corte novo de cabelo. O meu rosto parece ser mutável. Já tive cabelos curtos (fiquei a cara do meu irmão e não volto a ter esse visual de jeito nenhum), estilo chanel, franjinhas, cabelos repicados, pintados, etc. Hoje já não mudo tanto. Estou de cabelos longos e com a cor natural. Mas... Tenho vontade de pintá-los. Ainda vou amadurecer essa ideia. Será que vou causar novas confusões? E vocês? Já foram confundidos com outras pessoas?

A ilustração que acompanha este texto foi feita pela minha cunhada Nina. Ela a fez quando brincava de desenhar e pintar com os seus filhos. Humm, a moça da ilustração me lembra alguém...

Lu Vieira

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segunda-feira, março 08, 2010

As duas meninas


Ambas são magras, sendo que uma é magricela. Possuem a mesma altura. Ou quase. São morenas e têm cabelos longos. Usam biquínis. Uma de cor laranja e a outra, lilás. Irmãs? Não sei. Idade? Talvez 8 ou 9 anos. Estão na praia da Daniela, de águas tranqüilas, em Floripa. Eu também.

Quando meu olhar se dirige pela primeira vez para as duas meninas, elas estão saindo do mar. Uma mulher diz alguma coisa a elas. Pode ser a mãe delas ou de uma delas. Ou a tia. Ou uma amiga mais velha. As garotas vão para a areia e sentam na toalha estendida no chão. O sol está indo embora. Elas sentem frio e se protegem com roupas ou toalhas que não consegui identificar. Não gostam de ficar paradas.

Estou sentada numa cadeira na areia e conversando com os meus amigos. Muita gente foi embora. Às vezes, olho para as meninas, pois a mulher sumiu. Não consigo ver outro responsável por elas. Olho para aqueles que tomam banho de mar e tento descobrir se um deles é o responsável. Provavelmente a mulher havia dito que eram para elas esperarem ali, enquanto ia dar uma saída. Coitadas. Esperar, esperar e esperar.

De repente, as meninas se levantam e começam a desenhar na areia usando as mãos, os pés ou um pedaço de madeira ou uma conchinha. Fazem círculos, retas e linhas de diversos traçados. Param. Andam em cima dos traçados que desenharam. Uma distração interessante. Criaram caminhos. Apesar do sol se pondo, ainda uso óculos escuros. Assim, posso observá-las melhor sem elas se sentirem incomodadas.

Depois de andar por todos os caminhos que existiam, elas desenham de novo. Mais caminhos. E repetem várias vezes: desenham e depois andam. Em um determinado momento, elas estão perto de mim. Quando me veem, dou um largo sorriso. Elas fazem o mesmo. Não falo nada, pois estou sem os meus aparelhos auditivos. Havia tomado banho de mar e não podia colocá-los logo. Somente quando as minhas orelhas ficassem bem sequinhas. Elas continuam absortas na brincadeira.

Hora de ir embora. Arrumamos as coisas. Não esquecemos de nada na praia. Vamos indo em direção onde se encontrava estacionado o carro. Olho pela última vez para as duas meninas. “Adeus. Que Deus abençoe vocês. Que sejam boas e felizes. Que tenham pais maravilhosos. Curtam bem a infância”.

Lu Vieira

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segunda-feira, março 01, 2010

Os guarda-vidas

Quando o verão chega, eles estão nas praias. Não em todas. É possível encontrá-los onde o mar possui ondas perigosas ou águas agitadas. Dou graças a Deus pela existência do trabalho dos guarda-vidas. Considero de grande responsabilidade e de coragem por colocar em risco a própria vida. Já imaginou se eles não existissem? Se eu fizesse o papel deles sem ser uma guarda-vidas, não teria credibilidade. Alguns poderiam pensar assim depois de eu orientar a não entrar na água em determinado ponto: “Quem ela pensa que é para dizer isso pra mim?”.

Antigamente eram conhecidos como salva-vidas. Hoje são denominados de guarda-vidas. Bem, pelo menos aqui em Santa Catarina é assim. Penso que o nome atual é o mais adequado. Melhor ficar de olho na vida dos outros em vez de sair correndo a fim de salvar alguém do afogamento.

Em um fim de semana de fevereiro estive observando as atividades dos guarda-vidas na praia dos Ingleses em Florianópolis. Essa praia tem ondas fortes. Apesar de saber nadar, eu só fiquei na beira do mar. No entanto, muitos banhistas iam ao fundo do mar. E os guarda-vidas não ficaram de braços cruzados. Em vários momentos, escutei o apito. Eram eles chamando os banhistas para saírem da área perigosa. Comparei o desempenho dos guarda-vidas com os policiais que atuam nas ruas. Os guardas de trânsito também orientam as pessoas nas ruas ou chamam a atenção. “Aqui não pode estacionar”. “Vire à direita”.

Havia bandeiras vermelhas fincadas na areia em boa parte da praia. Elas indicam que o mar está perigoso. Em um trecho tinha três bandeiras vermelhas distantes uma da outra e unidas com fita plástica de cores amarela e preta. Isso significava que não podia entrar no mar de jeito nenhum.

Num determinado momento, eu e meus amigos vimos um ato de salvamento. Dois guarda-vidas retiraram do mar um homem que teve um mal-estar. Utilizaram um tipo de corda elástica para puxá-lo de volta à areia. Um puxava a corda e o outro segurava o homem. Deu tudo certo. A cunhada de minha amiga, que conheci naquele dia, contou que dias antes uma adolescente não teve a mesma sorte.

Próximo das oito horas da noite e o dia ainda claro, resolvemos caminhar na praia. Mal começamos a andar quando nos deparamos com inúmeras pessoas em volta de algo. Os guarda-vidas tentavam reanimar alguém. Era um homem? Uma mulher? Uma criança? O máximo que conseguimos saber era de que se tratava de uma moça. Alguns diziam que era uma adolescente. Outros, uma jovem. Muita gente que observava o ato deixou as lágrimas rolarem no rosto, inclusive eu. A emoção e a esperança tomaram conta de mim. “Meu Deus, ajuda eles. Por favor, não quero ver uma morte na minha frente”. Dois guarda-vidas solicitaram às pessoas a se afastarem da cena. Logo vimos um helicóptero se aproximando para pousar na areia. A equipe do SAMU (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência) chegou para ajudar no trabalho.

Seguiram mais alguns momentos tensos. Não conseguíamos ver direito. De repente, os profissionais pareceram ficar mais aliviados e estavam colocando a moça na maca. Os guarda-vidas fizeram uma roda. As pessoas que viram o acontecimento começaram a bater palmas. O helicóptero levantou vôo. De pé do lado de fora do helicóptero e uma mão segurando num suporte, um jovem profissional do SAMU apontou o dedo em direção aos guarda-vidas. Entendemos que o mérito do salvamento era para os guarda-vidas. Eles continuaram em roda, ajoelhados no chão e um abraçava o outro. Agradeceram uns aos outros e a Deus. Aplausos demorados. Muita gente foi cumprimentá-los.

Enquanto a moça era socorrida, reparamos que não havia um parente ou um amigo dela junto. Pode ser que os seus acompanhantes foram para casa e ela quis ficar mais um pouco na praia. Provavelmente disse: “Vou dar um mergulho”. Como sou curiosa, procurei nos jornais por alguns dias a fim de encontrar a notícia sobre a ocorrência. Não achei uma notinha sequer. Não pude saber quem era ela. Conclui que é melhor pensar que ela está bem. Mergulhou em direção à quase morte e os guarda-vidas mergulharam para trazê-la de volta. Viva os guarda-vidas!

Lu Vieira

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terça-feira, dezembro 01, 2009

Paixão ou Amor

A Paixão é arrebatada, brega, espalhafatosa e faz questão de que todos saibam que ela chegou. Usa mini-saia, top, salto-alto alto e maquiagem. A outra, Amor, é mais comedida e não tem necessidade de auto-afirmação. É segura de si. Usa calça jeans, regata branca, tênis, rabo de cavalo e um batom só pra disfarçar.





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sexta-feira, setembro 11, 2009

Deixa a chuva me levar

Noite chuvosa. Mais que chuvosa, parecia que as Cataratas do Iguaçu estavam descendo das nuvens. Ainda para completar, ventava muito. E o vento sul entrava nas frestas da parede, trazendo algumas gotas de chuva e muito frio.
Tião em seu casulo queria apenas dormir. Se o dilúvio acontecesse ele ficaria boiando em sua cama quentinha por quarenta dias e quarenta noites, até que aparecesse alguma pomba, ou sabe lá qual pássaro com um ramo de oliveira (era oliveira?) em seu bico anunciando terra firme.
Fora um dia terrível. O patrão cismou de encrencar com ele. Justo naquela sexta-feira nublada. Ter que trabalhar no sábado. Era só o que faltava. Tirava os sábados para jogar seu dominózinho do bar do Melo até às três da tarde. Sempre com muita gelada e tira gosto a vontade. Depois ia pra casa tirar um ronco até às sete da noite e depois ficava vendo tevê até de madrugada.
_ Diabos! Zeca cismou em ganir uma hora dessas! O que esse desgraçado quer? Tem comida, tem água, tem uma casinha que não tem tantas goteiras quanto a minha, e ainda fica ganindo?!
Onde a vontade e a coragem de sair debaixo das cobertas para ver o que o cachorro queria? Mas a peste não parava de latir e de ganir e com esse barulho todo não consegui pegar no sono. E ainda por cima amanhã tinha que acordar cedo pra trabalhar. Desgraça!
Ficava torcendo para o cachorro parar de ganir, dava umas batidinhas na parede e sussurava pela fresta _Vai dormir Zeca! Mas qual, aí mesmo que o vira-latas gania.
_Vai lá ver o que é Tião. Ele pode estar enrolado na corrente.
Valdete também tava acordada? Aconchegou-se a mulher, mas um cotovelaço esfriou suas vontades.
_ Sai Tião. Vai logo ver o que aquele bicho quer!
_ Diacho!
Levantou-se tropeçando nas panelas que estavam no chão por conta das milhares de goteiras. Manteve o equilíbrio para não escorregar no chão frio e úmido.Acendeu a luz da rua, esperou um pouquinho pra ver se Zeca parava de ganir mas não teve jeito. Tentou abrir a porta, mas qual, ela estava emperrada por conta daquela chuvarada. Deve ter estufado com tanto água. Forçou, forçou mas não conseguiu abrir. Sussurrou alguns palavrões e encaminhou-se à janela.
Abriu a janela e pode ver Zeca, todo encharcado, enrolado no cano da antena da tevê. Bicho burro, pensou. Como pôde se enrolar daquele jeito.
Zeca quando o viu começou a se agitar, quase derrubando a antena. Tião só tinha um jeito, pular a janela.
Chuva, vento, frio, madrugada, cansaço, tédio, raiva por ter que trabalhar no sábado, o cachorro perturbando. Bem que nunca quis aquele pulguento. Sua cunhada que o trouxe e convenceu sua esposa a tomar conta dele.
Tião apoiou-se na janela, lembrou-se que estava descalço, mas já era tarde, depois lavaria os pés, pulou em cima de uma madeira que estava totalmente ensaboada com a chuva, não pôde equilibrar-se e se estatelou de costas no chão. Percebeu que não era apenas o sabão da chuva, mas, também, o cocô do Zeca.
_ Cão miserável!
Tião levantou-se totalmente sujo, dolorido e encharcado. Zeca a essas alturas estava cabisbaixo e silencioso, amedrontado, pois seu instinto já lhe dizia que iria sobrar pra ele. Até porque ele fora o protagonista de toda aquela confusão.
O primeiro pontapé acertou as costelas do cão que soltou apenas um pequeno gemido de dor, o segundo acertou-lhe a cabeça, o que fez doer mais o pé do Tião do que a parte acertada do cachorro, até porque nosso herói estava descalço. Tião conseguiu alcançar a corrente e soltou o cachorro que desabaladamente pulou a cerca e desapareceu.
_Vai filho de uma égua, desaparece e não volta mais! Gritou Tião.
Voltou para a janela e assustou-se vendo Valdete lhe olhando com uma cara de ódio e repreensão.
_ Desenrolei aquele desgraçado e ele fugiu. Foi o que pode dizer entre gaguejos sem graça.
_ Você é um desalmado, bater em um bichinho inocente e indefeso. Seu ignorante, grosso. Agora vais dormir aí na casa do Zeca para aprender. Antes que Tião pudesse articular qualquer palavra, Valdete bateu-lhe a janela na cara, quase lhe atorando os dedos.
Ainda protestou e bateu na janela, pedindo que ela abrisse, mas como viu que seria impossível e a vizinhança já começava a reclamar, não teve escolha senão se encolher na casa do Zeca, e passou a noite ali, molhado de corpo alma e coração, com cheiro de cocô e de vez em quando soltando um ganido que não sabia se era de frio ou de indignação.

Hélio Cabral Filho

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segunda-feira, setembro 07, 2009

Dunga & Eu

Ter um cachorro é bom. Ter um cachorro chow-chow é muito bom. Logo, os leitores estão pensando que sou uma pessoa que adora cachorro chow-chow. Sim, vocês estão certos. Quando vejo um, fico maluca. Paro para apreciá-lo aonde quer que ele esteja. Se estiver acompanhado do dono, pergunto sobre o cachorro. Em muitas caminhadas ou pedaladas que fiz em Floripa, um dos apelidos de Florianópolis, não era difícil cruzar com um chow-chow. Muitas pessoas devem ter pensado que eu estava admirando ou paquerando o dono, mas se enganaram. Mal reparava no dono, eu só tinha olhos para o chow-chow. Vocês sabem como é o cachorro dessa raça? Deem uma olhada na foto abaixo:


Uma fofura, concordam? O cachorro da foto era o Dunga que viveu com a minha família até fevereiro de 2008. A principal característica do chow-chow é a língua azulada. O Dunga era um chow-chow sem “pedigree”.

Durante a minha infância, adolescência e início da juventude, não tive cachorro em casa. Não que eu e meus irmãos não gostássemos de cachorro. Nós sabíamos que quem iria cuidar dele seria a minha mãe. Queríamos o cachorro só para brincar e ter a sua companhia. A minha mãe já tinha muitas responsabilidades. Então, não ficávamos insistindo em ter um cachorro.

A primeira vez que eu vi um cachorro chow-chow foi em Floripa, quando morava com a minha tia em 1994. Era estudante de Biblioteconomia e ia e voltava da faculdade de ônibus. Certo dia, dentro do ônibus, vi dois cachorros espetaculares. Nunca tinha visto igual a eles. Na verdade, eu me perguntei se eram mesmo cachorros. Pareciam dois leões em miniatura. A casa onde eles viviam não era muito longe donde morava. E não perdi tempo de ir vê-los mais perto. Soube que era um macho e uma fêmea. Toda vez que pegava ônibus, procurava sentar no banco onde dava para olhar esses seres graciosos.

Abandonei o curso de Biblioteconomia e voltei para Joinville. Anos depois, a namorada do meu irmão, hoje esposa dele, comprou um chow-chow com três meses de vida. Como morava em apartamento e vendo que o animal não era pequeno como pensava, ela perguntou se a minha família queria ficar com ele por alguns meses até terminar a construção de sua casa. Eu nunca havia imaginado que um dia teríamos cachorro em nossa casa. Nunca imaginei que seria um chow-chow igual ao casal que tanto gostava de vê-los em Floripa.

Quando a casa da namorada do meu irmão ficou pronta, o Dunga foi morar com ela. Apesar da casa dela ser próxima da nossa, foi difícil me acostumar sem tê-lo por perto. A namorada do meu irmão não gostou de vê-lo destruir o seu quintal. Novamente ela veio perguntar se nós queríamos ficar com o Dunga, dessa vez de forma definitiva. Claro! Ele já havia destruído boa parte das plantas de nossa casa. Minha mãe conseguiu fazer com que não destruísse as plantas de um canteiro de trás da casa. Como gostava de correr no quintal de nossa casa! Gostava de comer o que nós comíamos. Costumava colocar as suas patas dianteiras na mesa e olhava para a gente como se estivesse implorando: “Dá um pedacinho pra mim, por favor!” Conseguimos acostumá-lo a comer ração misturada com pedaços de carne.

Tínhamos que tomar muito cuidado com o portão da casa. Deveria estar sempre fechado. Caso contrário, ele disparava para a rua. Diversas vezes, conseguiu fugir. O meu coração ficava aflito e já imaginava ele sendo atropelado. Quando levávamo-lo para passear, era preciso segurá-lo com muita força na corrente. A alegria dele era tanta que acabávamos sendo arrastados por ele. Não adiantava puxá-lo. Quando o cansaço tomava conta dele, era nesse momento que conseguíamos andar lado a lado. Como éramos novatos em lidar com cachorro, percebemos tardiamente que ele precisava de um adestrador. Apesar dessa falha, conseguimos conviver de forma harmoniosa.

Certa vez, aconteceu algo extraordinário. Cheguei em casa após um dia de trabalho e coloquei o carro na garagem. Entrei em casa para guardar os meus pertences. Havia uma cesta básica que ganhei do trabalho no porta-malas do carro. Então, voltei para o carro, abri o porta-malas, peguei alguns produtos da cesta básica, olhei para o outro lado e... O PORTÃO ESTAVA ABERTO! Rapidamente, virei e olhei para o Dunga que se encontrava sentado na frente da porta da casa. E, imediatamente, sem correr, fui em direção ao portão para fechá-lo. Inacreditável! Ele não tentou fugir! Ficou tranqüilo e vendo o que eu fazia.

Ele foi meu modelo fotográfico predileto. Quando cursava Jornalismo, havia aulas de fotografia. As máquinas fotográficas que utilizávamos eram profissionais. Hoje esses equipamentos são mais práticos, pois as imagens são digitais e podemos ver como elas ficaram na tela da própria máquina e do computador. No tempo da faculdade, não havia essas facilidades. Então, para dominar o uso da máquina fotográfica profissional, treinei bastante tendo o Dunga como modelo. Afinal, ele sempre estava disponível para mim. A foto do lado foi fruto do meu treinamento.

Na clínica veterinária onde o Dunga era tratado, as pessoas diziam que ele era o único chow-chow manso. Outros chows-chows eram brabos. O Dunga era considerado o cachorro “zen”. Ele não costumava ficar latindo à toa. Só latia quando havia presença de perigo ou alguém estranho ou com atitude suspeita. Só de olhar para a sua aparência, as pessoas ficavam assustadas ao passar na frente de nossa casa. Alguns diziam que era filhote de urso, outros, filhote de leão.

O Dunga tinha um inimigo. Era o Nero, um vira-lata preto da vizinha de frente de nossa casa. O Nero podia sair e voltar para casa sozinho. Às vezes, ele ficava sumido por um bom tempo. Certa vez, eu estava levando o Dunga para passear quando o Nero veio em nossa direção. Ele atacou o Dunga. Tentei separar os dois e não deixei o Dunga machucá-lo. Apesar de ser mais novo, já era mais forte que o Nero. Pronto, os dois se tornaram inimigos. Era engraçado ver os dois, cada um na sua casa, correndo pra lá e pra cá, latindo e olhando um para o outro. Quando o Nero morreu, o Dunga ficou triste. Por vários dias, ficou quieto olhando para a casa onde o Nero morava. Ele gostava do seu inimigo. Ou talvez nem fossem inimigos.

Um dia o Dunga também partiu. Quando isso aconteceu, eu já vivia novamente em Floripa. Minha família e o cachorro continuaram morando em Joinville. Não sabemos a causa de sua morte. Antes de levar à clínica veterinária para banho semanal, meu pai percebeu que ele estava fraquinho. Precisou carregá-lo para colocar no carro. À tarde, a clínica ligou para o meu pai avisando que ele estava bem e já podia buscá-lo. Chegando lá, o Dunga tinha acabado de falecer. Meu pai não quis fazer a autópsia por conta do alto custo. As suspeitas foram que ele faleceu por causa da idade avançada ou do osso estranho que foi encontrado em nossa casa. Talvez o osso estivesse envenenado. Ele tinha 8 anos.

A última vez que vi o Dunga, ele estava com os pelos curtos. Ia para Joinville em alguns fins de semana. Havia dito a ele: “Na próxima vez, quero te ver todo peludo de novo!” Não houve a próxima vez. Deixou saudades e marcas de uma boa convivência. A foto do lado foi a última que eu tirei dele.

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segunda-feira, agosto 31, 2009

Um rosto (des)conhecido

Certa vez levei minha irmã mais nova, portadora de síndrome de Down, para a aula de dança. Cumprimentei a professora e os coleguinhas do grupo de dança. A professora dava aula de graça para crianças portadoras de necessidades especiais. Sempre admirei o trabalho voluntário dessa jovem professora. Quando a aula de dança começou, sentei num banco que ficava de frente para a sala com vidros transparentes onde minha irmã dava os seus passinhos. Como a academia oferecia outras atividades físicas, observei as pessoas que faziam exercícios. De vez em quando, olhava para a minha irmã. Num certo momento, o meu olhar se dirigiu para a área de musculação e notei um homem fazendo exercício com os braços em um aparelho de ginástica. Ele sorriu e acenou para mim. E fiz o mesmo para ele. Percebi que ele me conhecia e eu não sabia de onde já o vi. Tinha porte atlético, cerca de 50 anos de idade, cabelos e barbicha branca, e era alto e bronzeado. Por mais que me esforçasse, eu não conseguia me lembrar dele. Fiquei frustrada com a minha fraca memória. Eu tinha certeza que era um rosto conhecido, inclusive que já o havia entrevistado quando era estudante de jornalismo. Após o término da aula de balé, voltei para a minha rotina diária e esqueci o homem. Dias depois, estava lendo o jornal de minha cidade quando meus olhos se fixaram em uma página. Lá estava a foto dele. A do rosto que eu tanto tentei me lembrar no dia do balé da minha irmã. De fato, eu o havia entrevistado para uma reportagem da faculdade. A matéria tratava sobre estabelecimentos tombados da cidade onde eu vivia. O homem era um arquiteto muito conhecido e trabalhou em diversos órgãos públicos. Quando o entrevistei, ele atuava como assessor urbanístico da Câmara de Vereadores. A entrevista foi muito boa, pois ele respondeu a todas as perguntas com muito profissionalismo e conhecimento profundo sobre o urbanismo da cidade. O jornal que eu lia naquele dia estava noticiando que o arquiteto foi encontrado morto no apartamento em que morava sozinho. Ele teve infarto fulminante. “... deixou dois filhos...” E me deixou em estado de choque e depois caí num choro compulsivo. “Como pude esquecer aquele homem...” Não gosto de esquecer de uma pessoa com quem conversei bastante, mesmo que tenha sido por um dia apenas. No dia do balé da minha irmã perdi uma oportunidade de conversar outra vez com ele. O que chamou a minha atenção nesse homem no dia da entrevista foi a sua paixão pela cidade de Joinville. Ele era baiano e conhecia muito bem o lugar que escolheu para morar. Melhor do que eu, que sou natural de Joinville. Ele lutava para deixar a cidade mais bonita e boa de viver. Dava para ver nos seus olhos o orgulho que ele tinha por Joinville. E isso faltava em mim. Ele se foi e me deixou uma lição de amor pela cidade.

sexta-feira, agosto 21, 2009

Os Dez Mandamentos

Que me perdoem a heresia, mas tenho algumas dúvidas a respeito dos 10 mandamentos da igreja.
Quanto ao primeiro mandamento: “Amar a Deus sobre todas as coisas.” Servirá aqui o uso da lógica dedutiva?: Deus já não está sobre todas as coisas? Se Deus está sobre todas as coisas e amamos a Deus não estamos amando também todas as coisas em igualdade de condição?
“Não tomar Seu Santo nome em vão”. Quanto a esse segundo mandamento, Quando praguejamos, vociferamos e explanamos: “Meu Deus!” (ao vermos uma gostosa atentando contra a nossa divina fidelidade): “Deus do céu” (depois que nosso time perdeu um gol ou de sermos claramente roubados pelo juiz); “Deus!” (após nossa mulher nos contrariar) Sabemos que tudo isso é em vão. Portanto, seria pecado fazer tais comentários?
“Guardar domingos e festas de guarda”. Domingo nos empanturramos de comida e de bebida (gula); Ficamos em frente a TV quase o dia inteiro, vendo Gugu, Faustão e companhia (preguiça); Xingamos o time adversário, a mãe do juiz que roubou o nosso time e toda a sua casta familiar (ira); Vamos ao shopping e não gastamos um tostão, sequer com um sorvete para as crianças (avareza); Ficamos pensando naqueles seres privilegiados em que todos os seus dias são domingos e não precisam trabalhar amanhã, neste caso segunda feira, (inveja); Lavamos o carro e, após ele limpo, ficamos olhando quase uma hora pra ele, achando-o o máximo (soberba); Sonhamos com uma TV de plasma ultra moderna, de trocentas polegadas para continuarmos sentados, vendo Faustão, nos empanturrando e xingando o juiz (Luxúria).
Isso porque nem contei os dias de festa de guarda, apesar de que não sei o que significam festas de guarda. Seria um baile na delegacia?.
“Honrar pai e mãe”. Conta aqui também o pai e mãe do próximo? No caso a genitora daquele juiz que havíamos xingado? (aqui já estou usando a 3ª pessoa e colocando todo mundo na “responsa”).
“Não matar”. Aulas, serviço, tempo, e aquele juiz FDP também conta?
O sexto mandamento “Não pecar contra a castidade”. O que é castidade? Alguém pode me responder?
Quanto ao “Não roubar”. Não somos todos uns ladrões? E os políticos? Vou mais longe ainda, e aquele mesmo juiz, ladrão, safado, sem vergonha, # * ¢ ¬ < ?>.
“Não levantar falso testemunho”. Fazer propaganda da nossa virilidade, da nossa macheza, beleza, potência, força, cultura, inteligência, etc. também conta?
O pior de todos: “Não desejar a mulher do próximo”. Alguém ainda, em sua sã consciência, faz isso? Na verdade o próximo aqui seria o seguinte? Assim nunca chegaríamos ao próximo e sim a mulher do primeiro. Se é que me entenderam.
O ultimo mandamento “Não cobiçar as coisas alheias”. Aqui também entra a mulher do próximo? Principalmente a mulher daquele juiz filho da mãe?
Que Moisés me perdoe toda a minha ignorância. Espero pelo menos que ele me dê um “Sinai” em resposta. Prometo que não construirei nenhum ídolo de ouro. Apesar de que o Romário está na minha lista.

Hélio Cabral Filho

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segunda-feira, agosto 17, 2009

Pedalando na Beira-Mar Norte




Desde pequena conheço Florianópolis, capital de Santa Catarina, por ser a cidade onde vivem alguns parentes meus. Ela sempre exerceu um grande fascínio em mim. É a segunda oportunidade que estou tendo de morar na Ilha da Magia, como é conhecida Florianópolis. Desta vez consegui realizar um dos meus grandes sonhos: pedalar no calçadão da Beira-Mar Norte. Várias vezes olhei de dentro do ônibus e do carro para o calçadão com desejo de estar ali pedalando. Fazer caminhada é muito bom, mas, para mim, pedalar é muito melhor do que caminhar. Ambos são excelentes exercícios físicos e de relaxamento mental. Não lembro exatamente quando surgiu a minha paixão por andar de bicicleta. Posso dizer que andei muito de bicicleta na infância.



A primeira pedalada na Beira-Mar Norte de Florianópolis aconteceu na tarde de um domingo ensolarado. Eu não tinha bicicleta. Meu irmão emprestou a dele e lá fui sozinha realizar esse sonho. Estava muito atenta no trânsito antes de chegar ao destino desejado. Mal pisei no calçadão da Beira-Mar, a alegria encheu o meu peito. E fui pedalando e observando as pessoas. Uns caminhavam, corriam, alguns patinavam e outros também estavam andando de bicicleta. Como é bom ver as pessoas fazendo isso, pois elas estão valorizando o cuidado de sua saúde. Do ponto onde comecei a andar de bicicleta, ainda não dava para ver o mar. Enquanto ele não aparecia, ora olhava para as árvores de um lado e de outro para a cidade e os carros que passavam por ali. Quando o mar surgiu, meus olhos brilharam. Logo lágrimas escorriam no meu rosto e eu sorria o tempo todo. Não sei o que as pessoas pensaram quando me viram. Era muita emoção. Estava muito grata a Deus pela oportunidade e por tantas maravilhas que Ele criou para nós. Enquanto eu observava o que estava em minha volta, pude pensar na minha vida, na minha família, no trabalho, nos amigos, nos outros sonhos... As dificuldades da vida pareciam tão pequenas naquele momento. Eu me sentia tão próxima de Deus e tão grata pela vida que tenho. Por que reclamar tanto? Agradecê-lo e sentir a sua presença é tão bom. Ao mesmo tempo, senti o quanto sou amada pela minha família e amigos. O vento e os raios solares batiam no meu rosto. Quando o vento ficava mais forte, eu precisava dar mais força para as minhas pernas. No trajeto da Beira-Mar Norte daquele dia, passei por uma passarela. Não consegui ter força para subir a rampa. Então, precisei descer da bicicleta e ir caminhando. Hoje consigo subir a rampa da passarela sem descer da “magrela”. Aproximei de duas das três pontes de Florianópolis, que ligam a ilha ao continente. Foi fascinante olhar as pontes de baixo e ouvir o barulho dos veículos que trafegavam nelas. A partir dessas pontes, fiz o trajeto de retorno para a casa do meu irmão. Em um trecho, resolvi sentar num banco do calçadão. E pude apreciar em minha frente a beleza e o movimento do mar, apesar das águas não serem próprias para banho. Fechei os meus olhos para sentir mais o toque do vento e dos raios solares. E depois continuei a andar de bicicleta até chegar à casa do meu irmão.



O sonho foi realizado. Até hoje pedalo na Beira-Mar Norte, principalmente aos domingos, quando tem sol. Meu irmão foi embora de Florianópolis e deixou a bicicleta dele para mim.



Postado por Lu Vieira.



quarta-feira, agosto 12, 2009

Eu Robô

Fagundes chega ao serviço, estaciona seu carro, trava-o e segue caminhando até sua sala. Nesse trajeto dezenas de pessoas passam por ele, mas, como elas estão abaixo do seu queixo, não as vê.
Entra em sua sala, senta em sua ilha (assim mesmo no possessivo) e isola-se.
Esses espaços foram chamados de ilhas propositadamente. As pessoas nadam até elas, como náufragos. Completamente ilhados, cercados de indiferença por todos os lados, assim, sobrevivem as suas oito horas diárias.
Belas mensagens nos murais, notícias importantes, um cartaz interessante, tudo é ignorado, imagine um ser humano, esse ser insignificante, egoísta e mesquinho. “Quero mais é cumprir minha obrigação e ir para minha casa!”, acusa aquela voz sintética e programada.
E assim vai a massa ignara, tangida e submissa para os abatedouros da vida.
Onde está aquele aperto de mão sincero? Onde está aquele abraço amigo? Aquele sorriso justo? Aquele bom dia altaneiro? Onde foi parar o cavalheirismo, a diplomacia, a educação?
Seres autômatos, formais, empedernidos, céticos, cruéis!
A frieza, a indiferença, o desamor, o apego às coisas materiais, a servidão humana, a devassidão do tempo, sei lá o que mais. Tudo isso contribuiu e contribui para afastar e isolar as pessoas, tornando-as escravas de si mesmas.
Relacionamento. Que bela palavra. Significa manter laços afetivos, conectar-se, estabelecer ligações e correspondência. Mas não passa disso, apenas uma palavra, principalmente dentro de uma repartição pública.
Morto-vivos, zumbis é o que são. Gente sem alma e sem coração (perdoem-me a rima pobre, não foi minha intenção, putz, de novo!).
Nenhum ser humano pode passar dias, meses, anos nessa sofreguidão, nesse isolamento, apenas uma máquina fria, oleosa, sistemática e calculista pode sobreviver dessa forma.
Não se trata aqui de desrespeitar o individualismo (e nesse caso essa palavra ganha ênfase), trata-se de saber que vivemos em bando, em sociedade, em grupos. Nem mesmo o eremita na mais inóspita região desértica está só (esotericamente falando).
Chega à hora religiosa do final do dia. “Programadamente”, Fagundes assina seu ponto, ergue-se de sua cadeira e caminha em direção ao seu túmulo para descansar suas engrenagens, e na manhã seguinte, voltar ao seu obscuro oceano, ao seu planejado arquipélago e a sua inestimável, desolada e gélida ilha.

Postado por Hélio Cabral

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segunda-feira, março 02, 2009

Você já teve dias assim

Você ja teve dias assim. Creio que todos nós, em um momento ou outro já nos sentimos assim. É um sentimento estranho. Um peso na alma. Não é fisico. Você não está cansado, meestá cansado, mesmo assim tudo parece tão pesado, tão custoso. E o que era bonito agora á não tem a mesma beleza. De fato aquilo que era bonito por fora já não tem o mínimo encanto. Para pra pensar e vem uma vontade de chorar. Mas as lágimas não vem. A última vez que chorou foi de alegria. Só que o choro que precisa agora é aquele que diminui a pressão. As lágrimas que levam embora a angústia. E esse tipo de choro, talvez o mais necessário de todos, ele não está disponível pra você.
E quando fica diante das coisas realmente importantes sente uma vontade abraçá-las e extrair-lhes uma segurança que não podem te dar. Tudo o que se quer nesse momento e ficar ali, quietinho, abraçado e sem pensar em mais nada. Simplesmente esquecer do amanhã e que a vida continua, indiferente à sua vontade.
Nessas horas o que nos mantém de pé é uma coisa boba que chamamos esperança. Só mesmo ela pra nos segurar na hora de fazermos uma tolice qualquer. A minha foi bastante forte pra me manter até aqui. Espero que a de vocês também o seja.


P.S: Assim foi minha sexta-feira.

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quarta-feira, fevereiro 18, 2009

Meu primeiro beijo

No universo das crianças tarefas banais só precisam de imaginação para que se tornem grandes aventuras.

Com ele também não era diferente. Recebeu o convite e seus olhos brilharam, pois sabia, aquela não seria uma noite comum. Subiram à traseira da Kombi ele a irmã e uma coleguinha dela. A perua partiu carela. A perua partiu carregada de sanduíches em direção à zona industrial manauara. Aos onze anos talvez ainda haja espaço para magia e surpresas ou o fato de estar em uma nova cidade fosse a causa para que tudo brilhasse de uma forma intensa e cheia de vida. Os postes passavam rápidos criando um corredor de luzes. O vento agitava-lhes os cabelos. Pontes, casas, anúncios luminosos e prédios sucediam-se de forma vertiginosa e os solavancos eram o deleite dos pequenos passageiros. Jogando-os de um lado para outro e de baixo para cima. Exigindo habilidade para ficar em pé. Esforço que praticavam com um sorriso nos lábios como se aquilo fosse a maior delícia que a vida podia prorcionar-lhes. E ali envolto em todas aquelas sensações puras seus olhos mergulharam nos dela e repousaram sem entender o que se passava ou se esperava. Isso não durou mais do que alguns segundos, mas foi o bastante para que em algum lugar um gatilho fosse apertado.

Um beijo. O primeiro beijo na boca se é que assim podemos chamar um pequeno selinho dado dentro de uma Kombi sob a linha do equador. Os joelhos tremeram, um calor se espalhou pelo corpo, travou a língua e deu uma pane completa no cérebro.

A noite terminou por ai. Pelo menos em relação a sua memória que solapou todos os eventos posteriores. Guardando apenas a lembrança daquele rosto e daquele beijo. Sardas, nariz arrebitado, cabelo preto, curtinho e uma mancha rosa em algum lugar da face. Hoje esse rosto nem ao menos tem um nome, mesmo assim guarda consigo o privilégio do primeiro beijo na boca que ele ganhou.



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