Seu coração martelou uma vez, duro, espremendo duas lágrimas quentes de seus olhos...
Saiu da frente do computador e pôs-se a pensar. Onde iria chegar escrevendo frases pomposas e sem sentido como essas. Onde estava a pureza de sentimentos. A fúria destrutiva dos épicos ou o passo lento dos dias contemporâneos. Quando olhava a tela do computador e lembrava de todos os escritores que admirava, sentia vergonha de tudo que escrevia. Hemingway, Bukowski e Maupassant ririam na sua cara. Chamariam-no de medíocre e fracassado. Sabino, Márcio de Souza e Quintana por educação diriam que era melhor estudar um pouco mais. Waltari com seus hábitos frios de nativo do norte ofereceria sua indiferença.
Mesmo assim continuava escrevendo. Por que? Que angústia é essa que faz com que preencha páginas e páginas de palavras que talvez ninguém vá ler. Que prazer doentio tem em perguntar-se sobre a qualidade daquilo que criava. Seria a vontade de escrever uma forma de se igualar a deus? Uma busca pela comunicação que não consegue estabelecer com as pessoas ao seu redor? Ou simplesmente um desvario em busca da fama? De qualquer forma não conseguia chegar a uma resposta satisfatória e seguia escrevendo diariamente. Talvez a prática constante um dia o livra-se da pusilanimidade. Por mais que os amigos dissessem que havia alguma qualidade naquilo que produzia, uma voz interior fazia questão de fixar-lhe os pés no chão e mostrar que nada daquilo tinha algum brilho ou valor.
Apesar do conhecimento de que sua luta é inútil, mesmo assim segue em frente. A escrita é maior que sua vontade, exige voz, exige vez. Ele cavalo de uma entidade que não pode ser dominada segue digitando coisas que não acha dignas. Retorna à máquina, abre novo documento e digita:
Era uma vez...
Texto escrito a partir do blogue Once upon time e seu desafio:
Frase: "Seu coração martelou uma vez, duro, espremendo duas lágrimas quentes de seus olhos..."
Escreva uma história, um conto ou até mesmo uma fábula (nada de textos argumentativos) que contém a frase acima.
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segunda-feira, maio 31, 2010
sexta-feira, maio 28, 2010
Construir e cantar
Segue cantando como um passarinho,
Cantando mesmo na adversidade;
Mesmo que a força de uma tempestade
Lhe venha destruir todo o teu ninho.
Segue cantando com espontaneidade;
Não retrocede nesse teu caminho.
Se lhe machuca o mais cruel espinho,
Repara as flores com serenidade.
Cantando e construindo segue em frente,
Jamais perdendo a luz da confiança,
Construindo e cantando alegremente.
Segue cantando com perseverança,
De forma natural e persistente,
Nas asas da oração e da esperança.
Conforme eu prometi ai acima está um dos sonetos do Hélio Cabral. Com o tempo postarei outros.
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Cantando mesmo na adversidade;
Mesmo que a força de uma tempestade
Lhe venha destruir todo o teu ninho.
Segue cantando com espontaneidade;
Não retrocede nesse teu caminho.
Se lhe machuca o mais cruel espinho,
Repara as flores com serenidade.
Cantando e construindo segue em frente,
Jamais perdendo a luz da confiança,
Construindo e cantando alegremente.
Segue cantando com perseverança,
De forma natural e persistente,
Nas asas da oração e da esperança.
Conforme eu prometi ai acima está um dos sonetos do Hélio Cabral. Com o tempo postarei outros.
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terça-feira, maio 25, 2010
Carta, família e caneta
- Então garoto pra quem é a carta?
- É pra minha mãe. Escreve aí moço, mãe eu até queria escrever bonito...
...
Sozinha na penumbra da cozinha ela apertava a carta contra o peito. As lágrimas surgiam lentas e discretas. Depois de um certo tempo elas ficam mais escassas e talvez por isso mesmo mais valiosas. Entre um soluço e outro enxugava as gotas com as costas da mão. Estava sentada há muito tempo. Tanto tempo que o jantar já deveria estar pronto e a mesa posta a espera do filho, mas nada tinha sido feito ainda. Não que a refeição houvesse diminuído de importância, o que ocorria é que sua mente agora ocupava-se unicamente com duas coisas:
Saulo seu filho e dinheiro. Tanto dinheiro que ela não via meios de obtê-lo.
Não ouviu os passos no quintal e só voltou ao mundo real quando a luz foi acesa.
- Ô mãe! Chorando no escuro de novo. - largou a sacola numa cadeira e foi abraçar a mãe. As respostas e as perguntas podiam esperar. Aconchegou a cabeça dela sobre o peito e afagou-lhe os cabelos brancos. Quando se acalmou sentaram-se frente-a-frente de mãos dadas. - São notícias do Saulo mãe? O que aconteceu?
Ela tentava falar, mas a voz perdia-se em algum lugar e tudo que pode fazer foi entregar a carta toda amassada e borrada de lágrimas.
"Mãe eu até queria saber escrever bonito e dar boas notícias de mim. Mas não foi iço que Deus quis pra mim.
Estou preso no presídio... desde o dia... Acho que a sinhora já tá sabendo diço.Porque me me prenderam na rua confundido com um ladrão de bicicleta.
Mãe não tenho mais ninguem nesse mundo pra mi acudi nessa hora. Por iço escrevi essa carta pra sinhora.
Quando eu era pequeno a sinhora sempre me dizia que a vida da gente não tem preço. Mas aqui dentro tem. e o preço da minha é 500 real. Se eu não pagar até domingo o dono da cela disse que ia mandar me matar.
Mãe não me deixa morrer aqui. Faz o que puder mais arranja esse dinheiro pra mim.
Mãe se te fiz sofrer peço seu perdão.
Com saudades Saulo."
- Então o que a senhora vai fazer?
- Eu não sei meu filho. Não tenho esse dinheiro todo. Você tem que me ajudar.
- Nem que eu tivesse essa grana eu te dava.
- Ele é seu irmão. Você não pode abandonar ele.
- Eu? Quem fugiu de casa foi ele. E quer saber, lugar de maconheiro é na cadeia mesmo.
- Não diga essas coisa de Saulo que ele não merece.
- Lá vai a senhora de novo defender aquele vagabundo. Se o moleque tá lá é porque fez por onde, agora ele que se vire. Se é que o que ele escreveu é verdade. Mãe isso é só mais um golpe dele pra arrancar teu dinheiro de novo. Abre os olhos!
- Meu Deus! E eu rezo tanto, toda noite pra Deus abrir teus olhos filho. Pra que tanto ódio nesse coração. O que foi que teu irmão te fez pra merecer isso?
- Quem disse que odeio meu irmão? So acho que cada um colhe o que planta. Ele roubou, merece cadeia.
- Então você prefere ver o seu irmão morto do que lhe dar dinheiro.
- Chega disso. O tempo todo defendendo aquele safado. Tô de saco cheio. quer saber, é melhor que ele morra mesmo, quem sabe assim ele deixa a gente em paz. - saiu para o seu quarto e trancou-se batendo a porta.
Ela queria chorar, mas seu olhos estavam cansados.
...
Tarde da noite. Muitos dormiam, alguns fingiam, ele continuava acordado. Tempo demais sem dormir. Os olhos pesados. As imagens embaçam. Esfrega os olhos. Bate no rosto. A cabeça inclina-se lentamente . Cai. Acorda. Ergue de novo. De costas pra parede fria observa atento qualquer movimento, barulho ou atividade dentro da cela. Duas noites sem dormir. Até quando iria aguentar? Não sabia e agora tinha quase certeza de que o dinheiro não viria.Tudo bem, não que estivesse realmente bem, mas depois de tudo que fizera sua mãe sofrer era querer demais que ela aparecesse com todo aquele dinheiro pra salvar a sua vida. Mesmo assim não iria desistir. Ia lutar até o fim. Não ia se entregar. Ia conseg...
Uma coisa no rosto! As mãos presas no chão. Pernas imobilizadas. Quis gritar. Ninguém ouviu. Debatendo-se Ia se soltar. Dor. Uma porrada na barriga. Não conseguia fugir. Medo. Apoiaram alguma coisa em seu peito. Ar. Dor. Peito ferido. Dor. Ar. Ar. Ar...
Rostos assustados, sombrios, indiferentes, satisfeitos. A escuridão acolheu a todos. Até mesmo àquele inerte sobre a poça de sangue.
Na manhã seguinte nada se sabe sobre o crime. Apesar da caneta cravada no peito ninguém quis assinar a obra.
...
Ao repórter que lhe perguntava sobre a morte do filho respondeu:
- Veja só seu moço Ontem tentei visitar meu filho. Não deixaram. Hoje me dizem que já posso enterrar o corpo.
Texto escrito a partir do blogue Once upon time e seu desafio:
Frase: "pra quem é a carta?"
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- É pra minha mãe. Escreve aí moço, mãe eu até queria escrever bonito...
...
Sozinha na penumbra da cozinha ela apertava a carta contra o peito. As lágrimas surgiam lentas e discretas. Depois de um certo tempo elas ficam mais escassas e talvez por isso mesmo mais valiosas. Entre um soluço e outro enxugava as gotas com as costas da mão. Estava sentada há muito tempo. Tanto tempo que o jantar já deveria estar pronto e a mesa posta a espera do filho, mas nada tinha sido feito ainda. Não que a refeição houvesse diminuído de importância, o que ocorria é que sua mente agora ocupava-se unicamente com duas coisas:
Saulo seu filho e dinheiro. Tanto dinheiro que ela não via meios de obtê-lo.
Não ouviu os passos no quintal e só voltou ao mundo real quando a luz foi acesa.
- Ô mãe! Chorando no escuro de novo. - largou a sacola numa cadeira e foi abraçar a mãe. As respostas e as perguntas podiam esperar. Aconchegou a cabeça dela sobre o peito e afagou-lhe os cabelos brancos. Quando se acalmou sentaram-se frente-a-frente de mãos dadas. - São notícias do Saulo mãe? O que aconteceu?
Ela tentava falar, mas a voz perdia-se em algum lugar e tudo que pode fazer foi entregar a carta toda amassada e borrada de lágrimas.
"Mãe eu até queria saber escrever bonito e dar boas notícias de mim. Mas não foi iço que Deus quis pra mim.
Estou preso no presídio... desde o dia... Acho que a sinhora já tá sabendo diço.Porque me me prenderam na rua confundido com um ladrão de bicicleta.
Mãe não tenho mais ninguem nesse mundo pra mi acudi nessa hora. Por iço escrevi essa carta pra sinhora.
Quando eu era pequeno a sinhora sempre me dizia que a vida da gente não tem preço. Mas aqui dentro tem. e o preço da minha é 500 real. Se eu não pagar até domingo o dono da cela disse que ia mandar me matar.
Mãe não me deixa morrer aqui. Faz o que puder mais arranja esse dinheiro pra mim.
Mãe se te fiz sofrer peço seu perdão.
Com saudades Saulo."
- Então o que a senhora vai fazer?
- Eu não sei meu filho. Não tenho esse dinheiro todo. Você tem que me ajudar.
- Nem que eu tivesse essa grana eu te dava.
- Ele é seu irmão. Você não pode abandonar ele.
- Eu? Quem fugiu de casa foi ele. E quer saber, lugar de maconheiro é na cadeia mesmo.
- Não diga essas coisa de Saulo que ele não merece.
- Lá vai a senhora de novo defender aquele vagabundo. Se o moleque tá lá é porque fez por onde, agora ele que se vire. Se é que o que ele escreveu é verdade. Mãe isso é só mais um golpe dele pra arrancar teu dinheiro de novo. Abre os olhos!
- Meu Deus! E eu rezo tanto, toda noite pra Deus abrir teus olhos filho. Pra que tanto ódio nesse coração. O que foi que teu irmão te fez pra merecer isso?
- Quem disse que odeio meu irmão? So acho que cada um colhe o que planta. Ele roubou, merece cadeia.
- Então você prefere ver o seu irmão morto do que lhe dar dinheiro.
- Chega disso. O tempo todo defendendo aquele safado. Tô de saco cheio. quer saber, é melhor que ele morra mesmo, quem sabe assim ele deixa a gente em paz. - saiu para o seu quarto e trancou-se batendo a porta.
Ela queria chorar, mas seu olhos estavam cansados.
...
Tarde da noite. Muitos dormiam, alguns fingiam, ele continuava acordado. Tempo demais sem dormir. Os olhos pesados. As imagens embaçam. Esfrega os olhos. Bate no rosto. A cabeça inclina-se lentamente . Cai. Acorda. Ergue de novo. De costas pra parede fria observa atento qualquer movimento, barulho ou atividade dentro da cela. Duas noites sem dormir. Até quando iria aguentar? Não sabia e agora tinha quase certeza de que o dinheiro não viria.Tudo bem, não que estivesse realmente bem, mas depois de tudo que fizera sua mãe sofrer era querer demais que ela aparecesse com todo aquele dinheiro pra salvar a sua vida. Mesmo assim não iria desistir. Ia lutar até o fim. Não ia se entregar. Ia conseg...
Uma coisa no rosto! As mãos presas no chão. Pernas imobilizadas. Quis gritar. Ninguém ouviu. Debatendo-se Ia se soltar. Dor. Uma porrada na barriga. Não conseguia fugir. Medo. Apoiaram alguma coisa em seu peito. Ar. Dor. Peito ferido. Dor. Ar. Ar. Ar...
Rostos assustados, sombrios, indiferentes, satisfeitos. A escuridão acolheu a todos. Até mesmo àquele inerte sobre a poça de sangue.
Na manhã seguinte nada se sabe sobre o crime. Apesar da caneta cravada no peito ninguém quis assinar a obra.
...
Ao repórter que lhe perguntava sobre a morte do filho respondeu:
- Veja só seu moço Ontem tentei visitar meu filho. Não deixaram. Hoje me dizem que já posso enterrar o corpo.
Texto escrito a partir do blogue Once upon time e seu desafio:
Frase: "pra quem é a carta?"
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