terça-feira, setembro 07, 2010

A Guerra do Raluim

Em meio as trevas da floresta ardia uma fogueira. Ao seu redor conspiradores planejavam o sequestro e a morte de seus inimigos. Em jogo a hegemonia sobre o folclore nacional. Saci-pererê, Boi Tatá, Caipora, Mula Sem Cabeça, Boto, Cobra Grande e outros membros do imaginário popular estavam lá discutindo acaloradamente o que fazer.
- Esses malditos ianques imperialistas! Temos que matá-los.
- Calma Caipora. As coisas não são bem assim.
- São assim sim. Tem que matar esses porcos capitalistas. - o Cobra Grande fazia parte do grupo dos exaltados.
O saci que pitava quietinho no seu canto deu dois pulinhos até a beira da roda e disse:
- O caso é o seguinte. Os americano tão vindo. E vem pra ficar. Ou a gente expulsa eles ou nem nos livro de história vamo ter espaço. Diz que a invasão tá planejada pra dia 31 de outubro. Eles bolaram uma grande festa, enquanto o povo brasileiro festeja eles se instalam pra tomar o nosso lugar. - o Saci estava por dentro das coisas e já preparava o plano de ataque.
- Isso é pecado, só pode ser coisa do diabo só pode. - a mula-sem-cabeça relinchava e batia os cascos no chão, nada mexia mais com seus brios católicos do que bruxaria e satanismo. - Fazer as crianças se vestir de bruxa e induzi-las a praticar rituais de necromancia. Ouçam o que eu digo. Isso é uma estratégia do capeta!
- Deixa de ser carola Sem Cabeça! Se você tivesse medo de pecado não tinha ido fazer sacanagem com o padre. - Realmente o Cobra Grande estava pra lá de agressivo naquela noite.
- Mas será que tudo isso é necessário? - o Boi Tatá era da turma do deixa disso. - Eu soube que o governo já fez uma lei pra criar o dia do folclore e outra pro dia do Saci.
- Agora você vai começar a acreditar em político?
Com muita calma e paciência o Saci foi contornando os egos e disputas internas. Explicando a todos o que estava acontecendo e o que deveriam fazer para reagir e firmar o posto que detinham no imaginário popular.
- Primeiro precisamos descobrir quem são nossos inimigos e quais são as suas fraquezas. Pra isso eu já havia distribuído tarefas a alguns de vocês.
- Para aqueles que não me conhecem eu sou o Boto. Por me transformar em humano pude andar no meio deles e descobri que o dia 31 é o dia das bruxas e elas vem ai acompanhadas de vampiros, múmias, lobisomens e fantasmas. Pelo que pesquisei as bruxas a gente mata jogando água nelas. Parece que elas derretem. Se isso não funcionar a gente faz uma fogueira igual de São João e joga elas lá dentro.
- Eu sou a Mula Sem Cabeça e pelo que soube o símbolos desses adoradores de Satã é a abóbora. Isso mesmo, pra demarcar os lugares conquistados espalham jerimuns entalhados em forma de rostos demoníacos.
- O que eu descobri foi que eles funcionam na base da extorsão. Batem na porta das pessoas e exigem doces ou truques. É óbvio que não se trata de truques inocentes. Isso é coisa da máfia. O negócio é mais pro lado ou paga ou morre. Ah ia me esquecendo, pra quem não notou ainda eu sou o Caipora.
Gritos de morte e vingança contrastavam com clamores de derrota e pessimismo. A divisão do grupo era óbvia. Uns queriam resistir até o fim outros já contavam estar derrotados e pretendiam se matricular em cursos de inglês. Quietinho no meio das sombras o Saci pitava seu cachimbo de olhos fechados, mas bastante desperto. Quem prestasse atenção a cena notaria que algo estava sendo matutado em baixo daquela carapuça vermelha. Antes que a coisa desandasse de vez ou que todos se matassem ele pulou no meio da roda e começou:
- Quié isso minha gente. Tem causo pra medo não. Deixa os gringo vim que a gente dá jeito neles. Se bruxa tem medo d'água nóis manda a Iara resover. Os jirimum a Mula pode escoicear. Os mafioso deixa que eu e o caipora eliminamo.
Depois disso não houve muito mais discussão. Tomaram cada um o seu caminho e foram para suas casa se aprontarem para a grande noite.

A manhã de primeiro de novembro foi triste para todos os que conseguiram retornar ao ponto de encontro definido. Aos poucos foram chegando esfarrapados, com caras inchadas, Alguns ainda traziam lágrimas nos olhos. A derrota era visível, agora faltava descobrir o que tinha dado errado.
Na roda o Caipora, Boi Tatá e o Cobra Grande. De vez em quando um olhava pro outro e depois baixava os olhos em direção ao chão. O tempo passou e ninguém mais retornou. O Boi Tatá foi o primeiro a tomar a palavra:
- Então gente o que aconteceu com vocês? Cadê o Saci, o Boto e o resto do pessoal?
- Nós estávamos seguindo o plano. Íamos bater em algumas casas, berrar aquele negócio de "doce ou truque" é claro que íamos pegar os doces e depois barbarizar a casa das vítimas, mas logo na primeira casa deu tudo errado. Eu já tinha metido o pé na porta e o Saci entrou de rodamoinho gritando doce ou truque. De repente era tiro pra todo lado. A casa era uma boca de fumo. Eu fugi pela janela. E a última notícia que tive do Saci foram os gritos que vieram de dentro da casa "Perdeu neguinho. A casa caiu" - o relato do Caipora não explicava muito mas já dava uma ideia do que tinha acontecido.
- O Boto foi preso. Parece que a polícia não entendeu as intenções dele com uma bruxinha. Dizem que ela era menor de idade apesar de que eu não vi nada de menor nela. Na verdade a bruxa era bem avantajada. Ele pediu pra avisar a todos e que aqueles que pudessem ir visitá-lo na cadeia seriam de grande ajuda. Eu vou assim que eu puder. - o Cobra Grande terminou de falar e deixou que o silêncio voltasse a reinar.
- Gente pelo visto essa tal Guerra do Raluim não vai dar em nada mesmo. Acho que o melhor que temos a fazer é cada um voltar pro seu lugar e assombrar os seus políticos locais até eles aprovarem uma lei garantindo um dia pra vocês ou uma estátua ou qualquer coisa que o valha, pois se a gente depender das crianças e da cultura popular nós vamos todos entrar em extinção. Então é tchau pra vocês e a gente se vê no Raluim do, digo no dia do Saci do ano que vem. - com isso o Boi Tatá deu as costas ao grupo e sumiu queimando pela floresta.

O texto acima foi escrito para o desafio do Duelo de escritores.



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sexta-feira, setembro 03, 2010

Presença

Não me amas? Que importa! Ama-me fingindo.
Dá-me teu coração assim mesmo. Que importa!
Bem mais vale te ver assim gélida, morta,
Do que ver-te partindo!

Não me queres? Que importa! Queira-me mentindo!
Tua alma em minh’alma deleita, conforta...
Bem mais vale ver sempre fechada essa porta,
Do que ver-te partindo!

Ama-me, queira-me mesmo com fingimento;
Mesmo isenta de amor ou qualquer sentimento
E o peito não me abrindo.

Por mais falsa que sejas, se mentes, não importa!
Eu prefiro lhe ter assim frígida, morta,
Do que ver-te partindo...!

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quarta-feira, setembro 01, 2010

Curitiba - Parte I

Depois da longa ausência por motivos familiares, estou, enfim, de volta à blogosfera! Senti muitas saudades daqui e dos blogues que visito. O afastamento foi necessário, pois surgiram situações mais importantes e urgentes. Os momentos mais difíceis já passaram e agora é seguir caminhando em frente. Todos têm dificuldades e elas existem para nos ensinar alguma coisa como, por exemplo, sentir o quanto somos dependentes de Deus.

Para comemorar o meu retorno, conto como foi passar um dia sozinha em Curitiba. Há muito tempo desejava voltar para visitar a capital do Paraná que conheço desde a adolescência. Em 1996, fiz um passeio interessante com a minha amiga Léo. A cidade oferecia ônibus de turismo que levava os passageiros aos pontos turísticos. Quem embarcava nele recebia uma cartela com direito à visita em três lugares de sua escolha. Nós fomos ao Jardim Botânico, à Universidade Livre do Meio Ambiente e à Ópera de Arame. O que me deixou muito feliz é que esse serviço ainda existe! Muito bom!

Então, na terça-feira de 24 de agosto, em vez de ir ao trabalho, fui de táxi até a rodoviária e peguei o primeiro ônibus com destino à capital paranaense. Sim, eu avisei à empresa sobre a minha ausência. Não comprei passagem com antecedência, porque precisava ver como andava a família até o último minuto. Além disso, quis ter um dia sem me preocupar com horários. A viagem de Joinville à Curitiba dura duas horas. Como acordei cedo, dormi o tempo todo no ônibus! Abri os olhos somente em Curitiba!

As únicas coisas que providenciei antes da viagem foram definir onde passear na cidade e relembrar as ruas por meio do utilíssimo Google Maps. Não imprimi o mapa para não ser percebida como uma autêntica turista. Pude constatar que a minha memória continua boa, pois não me perdi na cidade. Um homem até me perguntou onde ficava determinada rua. Oba! Eu estava me parecendo ser uma curitibana!

A partir da rodoviária de Curitiba, andei em direção ao centro sem pressa e observando cada pedaço do lugar. O dia estava ensolarado e quente, apesar de ser inverno. No entardecer, veio o frio. Há muitas praças, das quais destaco a Praça Tiradentes, considerada o marco zero da cidade. Ao lado dela, fica a Catedral Basílica Menor Nossa Senhora da Luz dos Pinhais. Quando entrei na Catedral, logo senti o ar gelado e fui brindada com a linda arquitetura do local. Fiquei em silêncio por alguns momentos para conversar com o meu grande Pai.

Gosto demais de andar nos calçadões com um monte de gente ao redor. Um deles é o da XV de Novembro. Muitos edifícios conservam traços antigos e me deram a sensação de que eu dei um pulo no passado. Por volta do meio-dia, na Praça Tiradentes, embarquei no ônibus de turismo com a intenção de fazer o mesmo roteiro de 1996. A diferença é que, desta vez, o passe deu direito à visita em quatro pontos turísticos. Viva! Paguei R$ 20,00 pela cartela com cinco tíquetes, ou seja, um embarque e quatro reembarques, e recebi um folder com resumo dos lugares para visita.

O relato ficou longo e nos próximos posts conto como foi o passeio em cada lugar que estive. Sim, vou deixar vocês curiosos! Bem, espero que fiquem assim... Enquanto isso, convido a apreciar a foto acima da Praça Tiradentes tirada à noite.

Lu Vieira

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